Plataformalândia
Para onde iremos quando a água subir?
You’re reading the Portuguese translation of Rigland, part of Generation, Tractor Beam’s Spring 2025 issue. The translations are a collaboration with literary translation workshop led by Professor Elton Luiz Aliandro Furlanetto at the Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) in Campo Grande, Brazil. Subscribe to receive updates from Tractor Beam, or contact us to learn about reading in your own language.
Escrito por Suyi Davies Okungbowa
Arte de Burton Booz
Tradução de João Gabriel de Oliveira Arruda
English Language Version
A delegação chegou durante a alvorada.
Temple Kodam tinha saído do convés do oeste com uma hora de antecedência, e olhava o vasto Atlântico ao redor dele. A maré permanecia alta, as ondas batiam no revestimento de aço da plataforma.1 Uma grande chama alimentada por uma base de querosene ardia acima dele, no mastro desativado da plataforma, projetando sombras nítidas sobre o seu rosto.
Do crepúsculo surgiu um estrondo, um som de hélices enormes. Temple balançou a cabeça. Óbvio que estão vindo de helicóptero. Nunca desperdiçam a oportunidade de intimidar, de demonstrar seu poder e riqueza. Por que deixariam de fazer isso justo agora?
A aeronave pousou suavemente no heliponto, uma estrutura adjacente à plataforma de perfuração. As hélices foram desligadas; a porta abriu. Homens em uniformes militares e ternos pretos desembarcaram, andando firmemente pela plataforma, segurando as bordas de seus casacos para se protegerem do vento. Num dia favorável, Temple atravessaria a passarela que ligava a plataforma de perfuração ao heliponto e os encontraria lá. Mas hoje não era um dia favorável. Temple queria que eles viessem, para mostrar-lhes quem realmente estava no comando daquela reunião.
Enquanto subiam na passarela e desciam para a plataforma, Temple conseguiu identificar os visitantes. Os garotos de uniforme marrom com manga curta, com dragonas e tudo, eram os que ele mais conhecia. Boina da Marinha, cinto branco, meias brancas. Ele não os reconheceu como sendo de Abalu, sua própria comunidade, mas ele ouviu o idioma em que conversavam e sabia que eram de clãs de riachos vizinhos, de algum lugar entre Kolo e Oloibiri.2 Eram três, e o que parecia ser o mais velho — tinha 17 anos? 18? — carregava um fuzil. Temple conseguiu identificar o modelo mesmo à distância: o AKM de fabricação soviética do Exército Nigeriano, apelidado de Kalashnikov, ou kala, em homenagem ao seu inventor.
Ele ouviu o idioma em que conversavam e sabia que eram de clãs de riachos vizinhos, de algum lugar entre Kolo e Oloibiri.
Isso enfureceu Temple: Novos recrutas não deveriam andar armados. Adolescentes não deveriam andar armados.3
Temple concentrou-se nos três homens de terno, que claramente haviam contratado esses adolescentes como protetores. Dois deles eram desconhecidos, mas ele reconheceu o homem à frente como Octavio Nevin, porta-voz do conselho da Lieke & Lars Global, a empresa que havia instalado aquela plataforma no meio do oceano. Nevin era o único rosto da empresa que qualquer pessoa deste lado da terra tinha a oportunidade de ver, desde os representantes do governo até anciãos da comunidade. Nevin, com seus cabelos castanhos claros e dentes angulados, era todo sorrisos, revelando caninos enormes.
Ele exibia um sorriso de tal modo radiante, que era como se reconhecesse Temple mesmo sem nunca terem se encontrado. Sua mão estava estendida antes mesmo de seu pé tocar a plataforma.
– Octavio Nevin – ele anunciou sobre o vento. – Sr. Temple Kodam? – Temple assentiu e apertou a mão dele. O aperto de Nevin era firme, seguro. Ele esboçou um gesto para o pequeno homem branco ao lado dele.
– Esse é o advogado Hairston, do departamento jurídico da LLG. E esse é o Sr. Tonari, nosso tradutor e intérprete. – Tonari, claramente um homem do interior, parecia um peixe fora d’água naquele terno. Ele assentiu para Temple.
– Eu sei falar inglês, Sr. Nevin – disse Temple.
– Ah, sim – disse Nevin, com um estalar de lábios. – Perdoe a minha presunção: quando você trabalha pelo interior como eu, levar um tradutor acaba virando um hábito. – Ele apontou para a chama e fez um círculo com o dedo. – Eu deveria saber disso, já que você é o gênio renomado que tornou tudo isso possível.
Gênio não era uma imagem que Temple tinha de si próprio, mas deu de ombros. Seu povo frequentemente o via dessa forma. Fazia sentido que Nevin pensasse dessa forma.
– Então – disse Nevin.
– Então – respondeu Temple.
– Foi algo bom o que você fez pela sua gente, devo admitir. Oferecer abrigo no lugar mais improvável. – Ele se virou, observou o oceano. – Não estou certo se eu conseguiria, viver nisso aqui. Algo parecido com sair das beiradas e ir direto para o olho do furacão. – Ele inclinou a cabeça. – Mas você entende melhor essas condições do que eu,4 sendo tão familiarizado com o mar e seus segredos.
– Não estou certo se eu conseguiria, viver nisso aqui. Algo parecido com sair das beiradas e ir direto para o olho do furacão. – Ele inclinou a cabeça. – Mas você entende melhor essas condições do que eu, sendo tão familiarizado com o mar e os seus caminhos.
Temple franziu os lábios. O povo de Ogbialand, na verdade, não estava familiarizado com essas condições, nem com quaisquer ideias que Nevin e seus semelhantes poderiam nutrir a respeito deles. Eles não conversavam com os mares e rezavam para que se acalmassem (bem, até rezavam, mas não daquele jeito fantasioso que Nevin e seus semelhantes imaginavam). E é claro que eles sabiam lidar com a água, mas as tempestades eram outra história, capazes de surpreender e derrubar qualquer um.
Eles não viviam naquela plataforma porque queriam — estavam ali porque as atividades de exploração da LLG haviam despejado petróleo em suas águas, lançado fuligem em seu ar, destruído a proteção que seus céus ofereciam e tornado a terra de seus ancestrais inabitável.5 Eles estavam naquela plataforma por causa das próprias atividades que ali ocorreram, e se Nevin tivesse um mínimo de autocrítica, ele perceberia isso.
– É inovador também – disse o advogado, olhando ao redor. – Ouvi dizer que vocês possuem fazendas6 por aqui. É verdade?
– Ainda não – disse Temple. Havia planos, mas ele não pretendia contar nada para eles.
– De qualquer forma, enquanto estamos aqui – Nevin disse de maneira casual, como se eles fossem amigos agora, – quem sabe a gente pode dar uma olhada na propriedade? Ver o que fez por aqui desde que fomos embora.
Temple detestava o jeito como Nevin pronunciava aquela palavra. Propriedade. Quase como se estivesse insinuando que não era apenas a plataforma que pertencia à LLG, mas também as pessoas que ali trabalhavam, o fruto do trabalho deles. Mas Temple engoliu seco e acenou para que avançassem. Se houvesse alguma margem para negociação, ele teria que dar um pouco do braço a torcer.
Temple detestava o jeito como Nevin pronunciava aquela palavra. Propriedade.
Há um ano e meio, a tempestade chegou.
Abalu estava acostumada com tempestades. Muitas grandes tempestades foram profetizadas ao longo dos séculos por meteorologistas que dialogavam com os deuses e espíritos de seus ancestrais, ou por previsores do tempo, ou ainda por especialistas do tempo que consultavam dispositivos e aparelhos científicos que lhes permitiam especular e prever. Com uma combinação de conhecimento de todas as fontes possíveis, o povo de Ogbialand sempre encontrou maneiras de contornar as águas quando elas chegavam. Antigamente, dormiam em árvores até que as águas baixassem. Mais tarde, passaram a subir para locais mais altos e esperar a enchente passar em abrigos preparados. Recentemente, construíram casas de dois ou três andares acima do solo e evitaram guardar objetos de valor no térreo. Um andar de cima não era sinal de riqueza, mas de sobrevivência. Só os tolos construíam bangalôs.
Um andar de cima não era sinal de riqueza, mas de sobrevivência. Só os tolos construíam bangalôs.
Esta tempestade seria diferente.
Eles receberam avisos pelos canais habituais: primeiro, pelos relatos de seus antepassados, que alertavam sobre uma tempestade tão grande que suas águas jamais recuariam; depois, pelo locutor da cidade, informando que a tempestade estava de fato a caminho; em seguida, por transmissões de rádio e televisão, seguidas por alertas em celulares e mensagens nas redes sociais.7
Cada família arrumou o que pôde. Não pagaram para ver se os governos estadual e federal tomariam alguma providência. A experiência passada lhes ensinara que ninguém se importava com o seu bem-estar de uma forma que realmente importasse — nem o governador, nem o presidente, nem as organizações internacionais. Eles só podiam contar consigo mesmos.
O povo se reuniu na prefeitura para ouvir o discurso de seu Obanema, Sua Alteza Real Terra-Linda Awo, Oke XII. Lá fora, os avisos da tempestade iminente já começavam. Mangueiras e bananeiras balançavam suavemente, incessantemente, nervosamente. O salão estava quente, iluminado por lamparinas de pavio, a energia elétrica cortada em antecipação à enchente. Faltavam horas para o amanhecer, mas todos estavam bem acordados, a conversa incessante.
O Obanema elaborou planos simples. Cada pessoa iria ao riacho mais próximo, pegar qualquer barco ou canoa disponível e seguir para Ogiri, a comunidade mais próxima com a qual ele havia se comunicado. Eles seriam acolhidos por alguns dias e, depois, teriam que se virar sozinhos.
O povo de Abalu dirigiu-se para as margens em caravana, iluminados por lampiões de querosene. A costa estava repleta de embarcações de todos os formatos e tamanhos, balançando inquietas na expectativa da tempestade. Eles encheram as canoas e barcos, na certeza da incerteza, sem saber o que o amanhã, e o futuro além dele, poderiam trazer.
Exceto um homem.
Eles encheram as canoas e barcos, na certeza da incerteza, sem saber o que o amanhã, e o futuro além dele, poderiam trazer.
Por dentro, a plataforma não se parecia em nada com o exterior brutalista. Os refugiados levaram anos para finalmente transformá-la em um lar aconchegante, quente e íntimo. Quando a LLG resolveu abandonar a plataforma8 e transferir suas atividades de exploração de petróleo e gás para outro local na região, a empresa removeu todo o material útil do local — não apenas equipamentos e recursos, mas também coisas que certamente não lhe seriam mais úteis, como isolamento de parede e tomadas elétricas. Quase como se quisessem se certificar de que o lugar se tornaria completamente inabitável.
Mas a LLG não havia se preparado para Temple, nem para o conhecimento que ele havia adquirido, nem sua capacidade de encontrar soluções nas circunstâncias mais difíceis. Sem isolamento? Fibra vegetal colhida e seca poderia resolver o problema. Sem tomadas? Bastava conectar os conversores solares diretamente às extensões.
Sem isolamento? Fibra vegetal colhida e seca poderia resolver o problema. Sem tomadas? Bastava conectar os conversores solares diretamente às extensões.
Os conversores, agora em funcionamento, permitiam acender algumas lâmpadas de cada vez. Se a LLG quisesse ver o que tinham feito com aquele lugar, preferia que vissem tudo. As minúsculas cabanas, entupidas de famílias. As antigas áreas comuns — sala de jogos, sala de cinema, ginásio — agora convertidas em espaços de convivência pelos refugiados mais recentes. Tudo era meio superlotado, sem dúvida, mas não apenas de pessoas. O amor também estava espremido ali. Pertences artesanais que os refugiados haviam confeccionado depois de perderem tudo na tempestade e na enchente. Esteiras trançadas, roupas de cama trançadas, brinquedos trançados. Os mais novos haviam trazido, da terra firme, os recursos entregues pelas agências de ajuda humanitária que os visitaram após a enchente: alimentos não perecíveis, material de escrita, livros, remédios, kits de primeiros socorros.
Temple passou com os homens pelo centro educacional, onde as paredes estavam cobertas de desenhos a giz. Crianças pequenas eram conduzidas por educadores voluntários para o primeiro dia de aula no que costumava ser o refeitório da plataforma. Ele os levou para a clínica improvisada, onde atendiam os poucos idosos que precisavam de cuidados, atendidos por voluntários que trabalhavam em turnos. Levou-os até a cozinha, movimentada com os preparativos para um farto café da manhã de akará9 e mingau de milho. De lá, para o antigo depósito transformado em despensa e para as pequenas hortas internas onde eram cultivados vegetais e temperos. Em seguida, contornaram a área até a extremidade sul, mostrando-lhes como os painéis solares e outros acessórios — varais, tochas, alguns barcos para ir à terra de vez em quando — estavam instalados.
O único lugar que ele não lhes mostrou: sua oficina.
Eles também tinham passado por ela, a antiga sala da caldeira. Nevin perguntou o que havia atrás da porta.
– Não é da sua conta. – Temple não conseguiu atenuar a rispidez do seu tom de voz. Qualquer outra coisa ele saberia como contornar. Isso era pessoal.
– Isso é precioso, hein?
Temple sorriu. – Com todo o respeito, Sr. Nevin, eu acho que você não saberia reconhecer algo precioso mesmo que isso estivesse escancarado na sua frente.
Eles estavam de volta ao lado de fora. Foi uma boa decisão deixar os recrutas da frota de guerra ali. A maioria dos refugiados estava ocupada demais para notar os visitantes de terno. Mas alguns notaram, principalmente os anciãos que frequentemente se juntavam a Temple na tomada de decisões. Uma delas, Mama Nabai, os acompanhou sem ser notada, seguindo à distância, e agora observava o restante da conversa se desenrolar de longe.
– Então – Temple disse, quando eles estavam de volta à plataforma.
– Então – Nevin disse.
Uma lufada de ar serpenteou entre os dois.
– Você sabe porquê estamos aqui – Nevin disse.
– Ahã. Mas eu quero que você diga com sua própria boca.
Nevin fez um muxoxo, então disse, – Hairston, me faz um favor?
O advogado pôs as mãos nos bolsos. — Por mais que apreciemos o trabalho que você fez, e a sua simpatia para com as necessidades humanas dos que você acolheu aqui, infelizmente essa plataforma permanece como propriedade de Lieke & Lars, abandonada ou não. Dessa forma, o que você fez aqui se enquadra como ocupação ilegal. – Ele ergueu a mão, como se esperasse que Temple o impedisse. – Agora, não quero que pensem que somos insensíveis. Entendemos que vocês precisam de um lugar para morar até encontrarem um novo local para a sua comunidade.10 Então, ficaremos felizes em permitir que vocês fiquem aqui. Mas não de graça, é claro. Afinal, somos uma empresa privada. Fazemos negócios. Então, ficaremos felizes em fazer negócios com vocês.
Temple esperou para ter certeza de que ele havia terminado, e então disse. – Vocês querem cobrar aluguel.
Hairston levantou seus ombrinhos. – Vocês chamam de aluguel, eu chamo de compensação. Dá no mesmo.
Vocês chamam de aluguel, eu chamo de compensação. Dá no mesmo.
– Ahã. – Temple olhava para além deles, para o oceano. – E vocês possuem um valor em mente.
– Já temos a documentação. Um contrato para você assinar. Estamos dispostos a negociar os termos.
Temple riu. – Termos.
– Condições para a sua permanência.
Outra risada.
– Há algo de engraçado? – Isso foi o recruta da frota de guerra que disse, não em inglês, mas em língua Ogbia. Durante todo esse tempo, ele vigiava Temple, seu olhar cheio de desdém. Ele baixou o fuzil do ombro, segurou e apontou vagamente na direção de Temple.
– O que foi que ele disse? – Nevin perguntou ao tradutor, mas Temple já tinha se mexido. Ele foi em direção ao rapaz, segurou o fuzil pelo cano, apontando para o próprio peito.
– Opa, opa – Nevin ia dizendo. – O que tá acontecendo?
– Qual o seu nome? – Temple perguntou, falando em Ogbia.
O garoto, confuso, nervoso, olhando do fuzil para o homem, do homem para o fuzil. Atrás dele, os comparsas igualmente congelados.
– O seu nome, recruta – Temple repetiu.
– Itabai – o garoto disse.
– Progresso – disse Temple, a tradução em inglês. – É o que isso significa pra você? Progresso? Sacrificar a nós para esses mosquitos que sugam nosso sangue e o sangue de nossa terra?
O garoto mexeu a mandíbula por um instante, e respondeu, raivoso: – Você que começou.
Isso Temple não podia contestar. Ele não podia negar a raiva que o garoto sentia, e podia vê-la estampada nos rostos dos capangas do rapaz. Talvez eles estivessem certos, e talvez tivessem todo o direito de estar com raiva. Mas não na frente deles.
– Não aponte a arma pro seu próprio povo – Temple disse – a menos que você tenha intenção de atirar.
Ele soltou o cano e se virou para encarar um Nevin alarmado. O tradutor havia parado de traduzir, o que foi útil. Melhor para Nevin ter perdido aquele último trecho.
– Houve um tempo – Temple disse, – que eu achava que podia confiar em nosso governo para fazer a coisa certa e desmantelar essa plataforma quando vocês terminassem de sugar nossa terra. Mas mesmo isso vocês não fizeram. Vocês querem nos punir ainda mais por nos forçar a olhar a causa da nossa destruição. Esse é o tipo de maldade que vocês representam.
– Espera aí – disse Nevin. – Não vamos começar a julgar…
– Vamos iniciar um processo de despejo, Sr. Kodam – disse o advogado, – se não conseguirmos chegar num acordo de arrendamento.
– O que quer que vocês tenham nesses papéis, não podemos pagar. Nem um único naira ou dólar. Se pudéssemos, não estaríamos morando aqui. – Temple apontou para a plataforma de petróleo. – Essas pessoas perderam tudo. As águas da tempestade ainda estão lá fora, inundando nossas casas.11 – Ele apontou para Nevin. – Se vocês querem que a gente saia daqui, vão ter que vir e tirar tudo de nós novamente.
A delegação partiu sem mais discussões, voltando tranquilamente ao heliponto para junto do piloto, que não havia saído do seu assento. As hélices ganharam velocidade e, lá em cima, subiram em direção a um céu matinal agora brilhante, azul e cheio de esperança.
Mama Nabai finalmente se aproximou de onde Temple estava, observando o helicóptero desaparecer na distância.
– Eles vão voltar – ela disse, quase num suspiro.
Temple não era um homem robusto. Ele era baixo, magro, com bochechas arredondadas. Estalava o pescoço encostando as orelhas em cada ombro. Piscava constantemente. E, no entanto, para um homem tão discreto, suas ações na noite do êxodo de Abalu — desobedecendo às ordens de Obanema para migrar para Ogiri — suscitaram um falatório.
O Obanema, Terra-Linda Awo, estava de pé no topo de uma grande canoa, posicionada de forma angulada em direção ao barco de Temple. Ele vestia seus ornamentos oficiais: túnica, chapéu largo, pesados colares de coral e uma bengala requintada12 Seus pés estavam descalços. Temple, posicionado a uma distância considerável do ponto de partida da comunidade, verificava o motor de popa de sua canoa. O olhar penetrante de Terra-linda fixou-se nele.
Por algum motivo, Temple não sentiu hostilidade naquele olhar. Havia alguma desaprovação, mas não era tão grave quanto ele esperava. Mesmo assim, tentou ao máximo ignorá-lo, continuando a trabalhar em seu barco, esforçando-se para que seus dedos trêmulos permanecessem imóveis.
Após a algazarra diminuir, duas senhoras se destacaram da multidão, em meio a sussurros, e se aproximaram do barco de Temple. Uma dupla improvável — uma alta e corpulenta, a outra mais baixa e magra — talvez na casa dos 60 anos.
– Você vai a outro lugar? – a primeira mulher perguntou.
– Nós não queremos ir a Ogiri – a mulher menor disse. – Eles não nos querem por lá.
– Ela deixou um homem lá – a mulher mais alta disse, apontando para a outra. – Ele ainda pode estar vivo.
– Eii, Mama Nabai – a camarada dela disse, – não fique falando das minhas coisas por aí.
– Ele precisa saber do porquê de estarmos seguindo ele – Mama Nabai disse. – E se você não quiser que fofoquem sobre sua vida, pare de largar seus esposos. – Ela voltou a atenção a Temple. – Agora que você conhece os segredos de Kopiamu, o que tem a dizer?
Temple as observou atentamente e depois balançou a cabeça. – Não posso levar vocês. Me desculpem.
– A gente pode pagar. Só precisamos saber pra onde…
– Irei para a plataforma da LLG.
As mulheres semicerrraram os olhos. – Ele está falando sério – disse Kopiamu.
Mama Nabai assentiu. – Parece que sim. – A Temple, ela disse: – Eles te chamam de gênio de Abalu.
Temple riu. – Sério?
– Ouvi falar que você conserta coisas. Você consertou o lugar?
– Ahã.
Mama Nabai olhou para a camarada dela. – Bem?
Os olhos de Kopiamu se arregalaram. – Você pretende escapar da água indo direto para o oceano?13
Os olhos de Kopiamu se arregalaram. – Você pretende escapar da água indo direto para o oceano?
– É mais seguro lá – Temple disse. “As plataformas são construídas para resistir ao vento e à pressão da água. Ele inclinou o queixo em direção à cidade. – Nossas casas não têm proteção. A exploração devastou nossa cobertura vegetal.
– Então você não deveria ter ajudado eles – Kopiamu disparou de volta.
Temple apertou os lábios.
– Se eu tiver que escolher entre um marido insatisfeito e viver numa escada no mar com esse traidor, fico com o homem amargurado sem pensar duas vezes – disse Kopiamu, abraçando Mama Nabai. – Fique bem, minha irmã.
Mama Nabai assentiu. Após Kopiamu retornar para a multidão, ela disse a Temple: – Eu menti. Não temos nenhum dinheiro.
– Eu sei.
Ela o encarou. – Tente não absorver as palavras duras deles. Alguns de nós não conseguem expressar as coisas difíceis que carregamos nas nossas mentes e em nossos corpos. Mas estamos tentando. Todos nós.
Temple assentiu, concluindo a sua tarefa. Ele puxou a corda do motor, que estremeceu e ressuscitou.
– Eu não sei se consigo te ajudar – ele disse, lavando as mãos no riacho. – Mas eu posso te dizer o seguinte: eu saí por aí há meses, desde que as previsões começaram. Todas as coisas que eu tinha eu usei, vendi, troquei, e arrumei o lugar de uma forma a resistir até mesmo às tempestades mais fortes. Ele diminuiu o ritmo da lavagem para olhar para Mama Nabai. – Não há espaço para muitos, mas espaço para alguns. Se você quiser vir, há espaço para você.
Todas as coisas que eu tinha eu usei, vendi, troquei, e arrumei o lugar de uma forma a resistir até mesmo às tempestades mais fortes.
Temple gostava dessas viagens da plataforma até o continente, passando pelo que restava de Abalu. O movimento das ondas contra o barco, a tranquilidade dos riachos assim que deixavam o oceano e se aventuravam em seus cursos d'água, navegando de motor desligado, remando para economizar combustível. O que ele não gostava era da escuridão permanente dos riachos, o fedor de petróleo bruto viscoso que lambia o barco e o manchava de um amarelo escuro e sujo. Isso não era novidade — graças a empresas como a LLG, os derramamentos de petróleo eram frequentes na região. Mas a tempestade espalhou esses derramamentos exponencialmente, destruindo em poucos dias a infraestrutura de processamento numa velocidade que normalmente levaria 10 anos para ocorrer. Todas as instalações, usinas de processamento e sistemas de oleodutos foram atingidos, despejando incontáveis barris de petróleo bruto nas águas de Ogbialand.
A situação estava tão ruim que Temple nem saberia dizer quando haviam chegado a Abalu. O nível da água da chuva estava tão alto, a superfície tão escura, que não havia mais nenhuma distinção entre onde os riachos terminavam e a terra firme começava. Telhas de zinco, as pontas de árvores de madeira nobre, fios de postes de eletricidade: tudo despontava acima da superfície, sufocado até o pescoço pela água escura feito tinta.
Sua companheira de barco fez um muxoxo em sinal de desânimo.
– Nós nunca mais voltaremos – ela disse em Ogbia. – Nunca.
Temple estava inclinado a concordar. No mês passado, ele havia percorrido exatamente essa mesma rota. Nenhum sinal de mudança nos níveis de água pluvial desde então. Não havia indicação de que eles veriam a terra de seus ancestrais tão cedo. Mesmo que vissem, quem gostaria de viver em uma cidade encharcada de petróleo?
Eles passaram por Abalu e seguiram para Ogiri, que é onde estava o restante do povo de Abalu que não havia ficado na plataforma. A última notícia que ele recebeu era de que a maioria ainda não havia partido, depois de fugir para lá antes da tempestade. O povo de Ogiri estava ficando agitado. Para evitar qualquer conflito, o Obanema havia transferido sua sede para Ogiri, e era por isso que Temple estava indo para lá.
Ao chegar às margens do rio, ele saiu da água oleosa e pisou em terra oleosa. Sob o olhar atento dos habitantes de Ogiri, abriu os braços, quase como que dizendo: Olhem, eu venho em paz.
Sob o olhar atento dos habitantes de Ogiri, abriu os braços, quase como que dizendo: Olhem, eu venho em paz.
Ele foi rapidamente informado por uma refugiada Abalu idosa de que o Obanema não estava lá.
– Um barco o levou para o seu santuário – disse a mulher. –Vocês devem ter se desencontrado.
Isso surpreendeu Temple. Terra-Linda nunca tinha posto os pés na plataforma. Se os rumores fossem verdadeiros, ele planejava nunca fazê-lo.
A anciã olhou para Temple como se ele tivesse dificuldade para ouvir. – Você olhou ao redor? – ela perguntou. – Você calculou os números? Você viu as nossas casas vazias, nossos estômagos famintos, o medo que sentimos quando o trovão parte o céu? – Ela inclinou a cabeça. – Você ganhou, gênio de Abalu. O Obanema localizou um novo santuário, abandonado e vazio como o seu esteve. Ele quer que você o transforme no nosso novo lar.
Temple nunca havia chegado ao ensino médio, mas um ensino fundamental decente garantia que ele fosse fluente na língua dos estrangeiros tanto quanto na sua língua nativa. Isso, no entanto, não valia muito aqui, onde os caminhos para um jovem como ele eram bastante limitados: lenhador, canoeiro, cortar palmeiras, pescador ou peão de roça. A ausência de um pai — vindo de uma cidade distante, além das fronteiras estaduais das quais Temple jamais cruzara — e a falta de parentes por parte de mãe garantiram que ele não conseguisse nenhum aprendizado. A mãe dele, que a alma dela descanse, o levava consigo à sua barraca de comércio sempre que podia. Mas de que adiantava um jovem inexperiente no mercado, definhando junto à pedra de moagem, triturando os pedidos de melão, tomate e pimentão dos clientes?
O caminho mais sensato era juntar-se aos recrutas dos navios de guerra, que pareciam ser os únicos autorizados a entrar no domínio das empresas estrangeiras e em sua riqueza inimaginável. Todo jovem no Delta do Níger que queria partir, mas não tinha condições de pagar a universidade, tinha três opções: desaparecer para um lugar mais implacável do que aquele ali — uma cidade como Lagos; ficar e juntar-se à brigada local de navios de guerra, estacionada em Yenagoa (e obter acesso às empresas de petróleo e gás e ao seu dinheiro); ou ficar e juntar-se aos agitadores locais que lutavam contra essas mesmas empresas de petróleo e gás, na esperança de dificultar ou paralisar suas atividades.
A maioria optava pela carreira de navais, muitas vezes retornando após um ou dois anos, com uniformes marrons impecáveis e trazendo consigo uma quantia surpreendente de dinheiro e presentes para seu povo. Temple não tinha ninguém com quem conversar sobre isso, mas tal fato só tornava esse caminho ainda mais atraente. Contudo, um golpe de sorte aos quinze anos lhe proporcionou uma descoberta ainda melhor: uma aptidão para construir coisas.
Ele nunca imaginava que ser aprendiz de mecânico seria uma porta de entrada para o mundo da ciência. Acabou entrando nesse campo depois de fracassar em tudo o mais. Um ex-vizinho, que tinha um carinho especial por sua mãe, o apresentou ao mecânico mais experiente da região, um homem sábio que consertava todos os tipos de motores: barcos, geradores, caminhões. Ele iniciou Temple na limpeza, depois o promoveu para a troca de óleo e filtros. Um dia, apresentou a Temple o funcionamento dos motores e, sem querer, à física.
Temple viu naquele homem uma espantosa simbiose entre mãos e cérebro. Consertar os motores não era suficiente para saciar sua curiosidade, então ele começou a criar coisas com sobras da oficina — brinquedos de metal e borracha que se enrolavam, pulavam e corriam. Ele os distribuía para as crianças da comunidade, que o adoravam. O mecânico, percebendo que Temple sabia ler, desenterrou livros didáticos antigos de sua própria época como estudante que nunca chegou à universidade. Temple os devorou como se fossem guloseimas. Ele prestou o vestibular e foi aprovado com uma das melhores notas do estado
Mas a reitoria da universidade se mostrou relutante em dispensar a exigência do certificado do ensino médio, então Temple voltou para a oficina. E embora houvesse muito o que fazer em Abalu — instalar eletricidade nos complexos residenciais dos idosos, dar instruções de construção para barcos mais resistentes, criar padrões de tecelagem para redes de pesca mais fortes — ele desejava um futuro além desta comunidade que, desde a morte de sua mãe, começara a parecer cada vez menos sua.
Então, com 17 anos, quando surgiu a oportunidade de se juntar à brigada naval – um caminho para obter uma certificação que lhe permitiria candidatar-se novamente à universidade – ele a agarrou.
Temple não tinha a menor intenção de empunhar uma kala.
Após concluir um treinamento preliminar em Yenagoa e começar a usar um uniforme marrom, chegou a hora de ser enviado para as primeiras missões. Ele cruzou os dedos com força, torcendo para ser enviado a algum lugar onde ele pudesse entrar na universidade em meio período enquanto exercia as suas funções. Mas quando ele foi convocado para o escritório do seu comandante e mencionou que era de Abalu, o homem assentiu e escreveu duas palavras: escolta marítima.
Quando ele foi convocado para o escritório do seu comandante e mencionou que era de Abalu, o homem assentiu e escreveu duas palavras: escolta marítima.
Acabou descobrindo que, no final das contas, isso significava ser uma espécie de guarda-costas marítimo, escoltando trabalhadores do setor de petróleo e gás em suas viagens de ida e volta das plataformas. Jovens como Temple, baratos e locais, escolhidos a dedo especificamente para frustrar ataques de agitadores locais que frequentemente miravam os oleodutos e gasodutos. As empresas apaziguavam os recrutas com gentilezas tanto em terra quanto no mar. Em uma festa de Ano Novo, Temple recebeu seu primeiro presente embrulhado. Ele teve a oportunidade de andar em veículos interessantes, incluindo um helicóptero, onde quase morreu de susto.
Ocasionalmente, os engenheiros marítimos conversavam com ele e ficavam impressionados com seu conhecimento de motores. Alguns até quebravam o protocolo e o levavam para seus trabalhos, dando-lhe acesso ao funcionamento interno de algumas das máquinas mais complexas do mundo. Essas experiências ocupavam seu tempo nas plataformas e amenizavam sua crescente impaciência com o adiamento de seus estudos até o término dessa missão.
Simultaneamente, ele frequentava campos de treinamento com armas, usando pistolas de madeira frágeis e lascadas pelo uso constante. Então, um dia, do nada, Temple recebeu uma kala de verdade — uma pesada; uma que desafiava seu portador a tomar decisões precipitadas com ela. Ele ficou ali parado, atônito, enquanto o oficial comandante explicava que os rifles nunca seriam carregados, mas serviriam simplesmente para dissuadir agitadores.
Após o último treinamento básico, Temple embarcou de volta para Abalu. Ele trocou de lugar com um recruta encarregado de acompanhar um engenheiro holandês que queria se encontrar com o Obanema para discutir, em nome da Lieke & Lars, os planos para novas instalações de oleodutos. Temple não se importava com a visita; sua mente estava ocupada com seu primeiro retorno para casa desde que se tornou um recruta uniformizado. Sua mochila estava cheia de presentes14 para o mecânico e sua família — as únicas pessoas que ainda se importavam com ele, e ele com elas. Era costume oferecer algo ao Obanema também, um símbolo de retribuição à comunidade que o criou. Mas Temple calculava que já havia retribuído dez vezes mais do que aquele lugar jamais lhe dera. Era hora de seguir em frente e nunca mais olhar para trás.
Quando chegaram a Abalu, uma grande multidão de membros da comunidade estava reunida nas margens do rio. Eles tinham ficado sabendo da chegada do engenheiro e estavam lá para impedir que a reunião acontecesse.
O engenheiro, agitado, disparou para Temple: – Por favor, faça o seu trabalho.
Temple saiu do barco para encarar seu povo, e só então percebeu que segurava o novo rifle nas mãos, apontado na direção deles. Naquele instante, caiu a ficha de que ele era o primeiro recruta daquela comunidade a retornar armado.
– Por favor – disse ele. – Abram caminho.
Abalu, que antes via as empresas e seus representantes como males necessários — e a prática de enviar seus filhos para mamar em suas tetas como uma forma pragmática de buscar progresso — nunca tinha visto aquilo. Transformar seus pupilos em soldados de verdade? Virá-los contra seu próprio povo? E Temple, de todas as pessoas, aceitando, liderando, sendo pioneiro nesse novo papel?
A multidão ficou em choque.
Após aquele dia, permaneceu incerto por muito tempo se a multidão havia vindo preparada com projéteis, talvez reservados para o visitante da LLG. Mas assim que Temple se virou para eles com o kala, vestido com o uniforme marrom do inimigo, a multidão atacou.
Inhames-coco foram os primeiros projéteis. Em seguida, bananas-da-terra picadas. Depois, tudo o mais: pedras, areia, galhos com folhas. Alguns atiraram os sapatos. Outros cuspiram, lançando insultos como se fossem punhais.
Temple não soube ao certo como a arma disparou, nem para onde apontou. Mas, de repente, o aço em sua mão estremeceu, recuou e uma explosão cortou sua audição, deixando um zumbido em seus tímpanos. O ar cheirava a metal queimado, óleo e fumaça.
Ele olhou fixamente para o rifle, incrédulo. Carregado? Como assim?
A multidão corria, tentando se proteger. Não havia sangue, ninguém se feriu. Mas um dano ainda mais grave havia sido causado.
O engenheiro desceu do barco e deu um tapinha nas costas de Temple. – Contarei ao seu Obanema sobre o trabalho excepcional que você fez aqui hoje.
Durante anos, essas foram as últimas palavras que alguém naquela terra dirigiu a Temple.
Quando Temple voltou à plataforma, Terra-Linda estava sozinho no heliponto, sem sinal de seu grupo habitual. Ele vestia roupas comuns, shorts e camiseta. Estava careca — Temple nunca o vira sem seu chapéu de aba larga.
Ele foi até o Obanema e ficou ao lado dele, olhando para o mar, com o vento açoitando ambos.
– Meu povo está lá dentro – disse Terra-Linda. – Eles estão aproveitando o lugar.
Temple engoliu em seco e não disse nada.
– Ouvi dizer que você está ensinando as pessoas a fazer algumas coisas. – Terra-Linda semicerrou os olhos, com rugas se formando ao redor das pálpebras. – Ciências e coisas do tipo. – Ele se virou para Temple. – Foi por isso que vim aqui. Quero que você ensine o povo Ogiri também. Quero que todos saibam tudo o que você sabe.
Foi por isso que vim aqui. Quero que você ensine o povo Ogiri também. Quero que todos saibam tudo o que você sabe.
Temple balançou a cabeça lentamente. – Não é… tão simples assim, Obanema.
– Eu sei. – Ele suspirou. – A LLG tentou tomar de volta este lugar?
– Sim. Eu estava em Ogiri justamente para pedir que você conversasse com eles.
Terra-Linda assentiu e suspirou. – Não.
– Senhor?
– Não, Temple Kodam. Não haverá conversa. – Ele juntou as mãos na cintura. – Sabe por que ninguém falou com você durante anos?
– Eu juro, eu jamais iria…
Terra-Linda colocou a mão no ombro dele. – Não preciso de um pedido de desculpas, Temple. – Ele apontou para a plataforma. – Eles também não precisam, ou não estariam aqui.
– Então o que eles querem?
Terra-Linda apontou o dedo para o peito dele. – Que você carregue nossos interesses no coração, mesmo quando não é a melhor escolha para você. Atirar em nós em nome da LLG é o oposto disso.
– Eu... sinto muito.
– E eu também sinto muito, Temple, por você ter carregado esse fardo sozinho por tanto tempo. Porque fui eu quem mandou eles pra lá.
Os olhos de Temple se arregalaram. – Senhor?
– Me convenci de que concordar com a ordem do governador para permitir a presença da LLG aqui era um investimento no nosso futuro. Pensei: eles vão construir escolas e estradas.15 Mas o futuro de um povo é algo com o qual não se negocia. Percebi isso tarde demais. Então, mandei aquela multidão atrás daquele engenheiro para acabar com tudo. – Ele suspirou. – Eu mesmo deveria ter ido. Minha covardia destruiu você e, depois, esta comunidade. Por isso, peço desculpas. – Ele olhou para Temple. – Mas agora, temos a chance de fazer diferente, de sermos líderes melhores. – Ele estendeu a mão. – Então, chega de conversa. Só ação. Pelo futuro de Abalu.
Lágrimas brotaram nos olhos de Temple. Seus ombros tremeram. Não houve som, nenhum gemido, apenas uma lenta expiração, enquanto ele recebia a mão do Obanema na sua.
De volta à plataforma, ele passou pelo que costumavam ser as áreas comuns, onde agora se encontrava a maioria das famílias, assentadas; passou pela delegação de Ogiri, agora reunida com seus amigos e familiares de Abalu, que não viam há muito tempo; passou pelo pequeno grupo de aprendizes em potencial, tanto de Abalu quanto de Ogiri, de todas as idades e gêneros, esperando que Temple passasse para que pudessem segui-lo.
Passado o passado, passadas as brigas e as severas repreensões, a invocação dos ancestrais para punir Temple pelo que fez; passada a culpa que Temple carregou por anos antes da tempestade, e por meses depois, pesando sobre seus ombros e seu coração; passado o ressentimento, a abrasão, a ferida purulenta; passado.
Para o futuro; para a antiga sala da caldeira, agora a oficina de Temple.
Os aprendizes estavam à porta quando ele a destrancou. Ele empurrou a pesada porta para dentro, e eles esperaram — que ele a trancasse como sempre fazia. Mas desta vez ele deixou a porta aberta.
Ele empurrou a pesada porta para dentro, e eles esperaram — que ele a trancasse como sempre fazia. Mas desta vez ele deixou a porta aberta.
Uma a uma, ele acendeu as pequenas lâmpadas a bateria, deixando-as iluminar todos os equipamentos, os dispositivos, os planos desenhados à mão, as maquetes de projetos futuros, algumas delas girando, animadas. No centro de tudo estava seu prêmio máximo, a maior maquete de todas.
Era uma réplica desta mesma plataforma da LLG, mas diferente. Moinhos de vento feitos de sucata giravam a partir de guindastes imaginários. Árvores e arbustos feitos de papel verde cobriam a plataforma, principalmente no heliponto, onde uma fazenda prosperava sob uma cúpula transparente de celofane. Uma cascata geradora de eletricidade, feita de fios de algodão, despencava do ponto mais alto da plataforma direto para o mar.16
Os olhos dos aprendizes faiscavam, as sinapses dispararam, o futuro se desdobrou em suas mentes. É por isso que o chamamos de gênio de Abalu.
Mas Temple só tinha um pensamento: ele finalmente tinha uma resposta para Octavio Nevin.
A delegação da LLG chegou como da última vez: antes do amanhecer, de helicóptero, três de terno e três oficiais da frota naval. Esses novos oficiais eram adultos, todos portando rifles, e não pertenciam ao contingente local da frota naval. O tradutor era alguém diferente. O advogado era diferente. Apenas Nevin e seus longos caninos permaneceram os mesmos.
Mas tudo na plataforma havia mudado. Temple não estava mais sozinho para recebê-los. Mama Nabai estava ao seu lado desta vez, não ficou nada longe. Do outro lado estava Terra-Linda, com trajes de gala completos, incluindo sapatos. E atrás deles estavam todos os novos aprendizes de Temple.
– Imagino que você tenha refletido sobre nossa proposta? – perguntou Nevin.
– Ahã.
– Podemos conversar lá dentro? Tomando um café ou algo assim?
Temple balançou a cabeça em negativa lentamente. Nevin deu de ombros.
– Que assim seja. – Ele acenou com a cabeça para o advogado, que se aproximou com uma pequena pasta contendo uma pilha de folhas perfuradas presas por argolas de metal. Temple abriu a pasta, mas não leu o conteúdo. Em vez disso, pediu a dois aprendizes que a mantivessem aberta.
O advogado estava entregando uma caneta para Obanema, mas Terra-Linda não estava olhando. Em vez disso, ele separou as argolas com um estalo. Então, um a um, ele e Mama Nabai retiraram os papéis da pasta, reorganizaram cuidadosamente e os entregaram a Temple, que os recebeu e se afastou do grupo.
Ao chegar à beira da plataforma, ele se inclinou sobre a grade de proteção, estendeu a mão sobre a água e a soltou. Os papéis voaram ao vento.
Ele voltou para o grupo, pegou a pasta e a devolveu ao advogado perplexo. Nevin ficou vermelho.
– Então é assim que você quer jogar.
– Não – disse Temple, dando um passo à frente. – É assim que vamos proceder. Encontraremos todas as plataformas abandonadas que existirem nessas águas. Para cada lar que nos for tirado por suas ações, tomaremos um de vocês em troca. Transformaremos seus instrumentos da morte em beleza. Suas armas se tornarão flores. Criaremos um futuro em cada nova flor e as manteremos vivas enquanto nossas gerações precisarem delas para crescer e prosperar. E vocês, que desviaram o olhar do nosso sofrimento, também desviarão o olhar da nossa prosperidade. Fingirão que não veem, e nós fingiremos que vocês não investiram na nossa aniquilação. E embora o mundo ainda não esteja totalmente bem, ambos fingiremos que está. Por enquanto.
Suas armas se tornarão flores. Criaremos um futuro em cada nova flor e as manteremos vivas enquanto nossas gerações precisarem delas para crescer e prosperar.
O vento serpenteava entre eles. Nevin balbuciava, tentando encontrar as palavras certas. Após um longo silêncio, ele se virou para o grupo.
– Vamos. – Sem olhar para trás, subiu pela passarela até o heliponto.
O helicóptero decolou num movimento brusco. Mama Nabai estava com Temple e Terra-Linda, observando-o desaparecer.
– Eles vão voltar – disse ela.
– Ahã – disse Temple. – Com certeza.
Sobre o autor
Suyi Davies Okungbowa é um autor premiado de ficção científica e fantasia. Seus últimos livros incluem Lost Ark Dreaming, Warrior of the Wind and Son of the Storm (a fantasia épica República Anônima) e O Império Intergalático de Wakanda, um romance do Pantera Negra. Ele vive em Ontário, onde leciona escrita criativa na Universidade de Ottawa. Ele pode ser encontrado em @suyidavies e SuyiAfterFive.com.
Sobre o artista
Burton Booz é um artista generalista 2D e 3D radicado em Nova Iorque, que cria mídias estáticas, animações e vídeos impactantes, com ênfase no trabalho artesanal fundamentado no desenho e na escultura. Atualmente, está disponível para trabalhos de direção de arte, CGI, efeitos visuais, motion graphics e ilustração, tanto por contrato quanto como freelancer.
Sobre o tradutor
João Gabriel nasceu em 1997 e é professor em formação pela UFMS. Escreve e traduz prosa, tendo já traduzido um romance independente ainda inédito. Também publicou contos de maneira independente. Já atuou como leitor crítico e revisor. Desde 2024 participa do projeto de tradução Mão na massa.
Generation in Portuguese
Subscribe to read all of the stories in Tractor Beam’s Spring 2025 issue!
Know someone who is an avid sci-fi reader, passionate about climate, or loves to get their hands dirty? Spread the word, share our newsletter, or give us a follow on Bluesky and Instagram to stay connected. Let’s grow a better future together.








